A pesquisa

ARQUIVO PRESENÇA é uma longa e contínua pesquisa no campo das artes visuais que se propõe a constituir um arquivo sobre a arte de autoria negra no Ceará. Essa pesquisa foi iniciada em meados de 2017, de maneira independente, e sem apoios institucionais, com o objetivo de investigar como artistas visuais negres atuam dentro dos circuitos e sistemas de artes, o que produzem, e sobretudo, quem são esses e essas artistas. 

Interessado em realizar um processo de mapeamento, catalogação e sistematização de dados e informações sobre artistas visuais negros e negras, este projeto tem por objetivo e proposta central construir uma plataforma virtual que apresente todo o resultado desta pesquisa, possibilitando um acesso mais amplo do público, de artistas, críticos, curadores e pesquisadores acerca dessa produção. Uma pesquisa que se faz para que a história e a memória do povo negro no Ceará possam ser preservadas e difundidas. 

Até este momento há cerca de 65 nomes de artistas visuais negros catalogados nesta pesquisa, ainda em fase de levantamento de dados e informações sobre cada artista. Para elencar esses nomes foi necessário coletá-los através de diversos locais, alguns bastantes escassos e carentes de informações mais concretas. É sentindo justamente essa falta de dados sobre a produção artística de Fortaleza, e do próprio Ceará, que essa pesquisa surge e tem suas bases. 

Dessa forma, ARQUIVO PRESENÇA se constitui como uma plataforma de pesquisa, arquivo e memória, voltada para pesquisa da produção artística de autoria negra no Ceará, sobretudo no campo das artes visuais e suas interconexões com outras linguagens artísticas. O trabalho dessa pesquisa parte de uma reflexão crítica que analisa como o poder e a colonialidade instituíram dispositivos de apagamento e anulação das expressões artísticas e culturais negras na história da arte brasileira, como decretaram o esquecimento deliberado da memória do povo negro no Brasil, e compreendendo o genocídio do povo negro a partir de diversos aspectos, não apenas como a morte física do corpo, mas também a destruição cultural de um povo/coletividade, e ainda, os modos contemporâneos de atualização dessa violência sistémica. Lançando luz sob algumas questões centrais. 

A primeira é a de que para se pensar a arte de autoria negra no campo das artes visuais no Brasil, e de forma localizada e específica, no estado do Ceará, é preciso antes analisar os eventos raciais que antecedem a própria existência do lugar da arte contemporânea negra, do sujeito negro, e do circuito de arte, ou seja, entender que os caminhos que nos levam até aqui são os caminhos que nos antecederam. 

A segunda é a constatação da não existência de arquivos, documentos e dados efetivos que deem conta da presença, da existência e da atuação de artistas visuais negros dentro da história da arte no/do Ceará, e tendo em vista os contextos atuais, faz-se necessário compreender os modos contemporâneos que tal situação do arquivo se atualiza e repercute nas gerações atuais de artistas visuais negros. A terceira, e talvez mais importante pois se atrela às demais, é a de que o problema da arte contemporânea negra no Ceará é um problema de arquivo, o que quer dizer que, o nosso grande problema é (e sempre foi) um problema de ausência de documentação, sistematização de informações, levantamento e consolidação de dados, e efetivo processo de nomeação de sujeitos e de difusão do conhecimento nesse contexto racializado. 

Há ainda uma necessária revisão conceitual que parte da compreensão de que para classificar a atual produção negra nas artes visuais é preciso compreendê-la sob outra(s) ótica(s) distinta daquela utilizada para definir nas décadas passadas a categoria arte afro-brasileira, o próprio conceito de arte e o que vem sendo validado como tal, implicando os contextos, os conflitos e as diferenças de usos e aplicabilidades dos termos, considerando ainda as transformações sociais, culturais e políticas das quais a população negra passou ao longo das décadas. 

Nesse sentido, a plataforma ARQUIVO PRESENÇA, em sua dimensão expandida, política e crítica, compreende que o arquivovivo na contemporaneidade assume um papel estratégico de refazer a lógica das estruturas da colonialidade, possibilitando outros mecanismos de agenciamento da documentação e da preservação da memória, da cultura e da produção de conhecimento de sujeitos racializados. Como pensar a documentação em um mundo mais informatizado? De que forma é possível constituir processos de preservação da memória considerando os contextos raciais, sociais, culturais e políticos atuais? ARQUIVO PRESENÇA é, portanto, a construção de um possível arquivo sobre a arte de autoria negra contemporânea. 

Esse site, parte integrante da plataforma de pesquisa, arquivo e memória ARQUIVO PRESENÇA, reúne informações, dados e revisões teóricas, sistema um banco online e gratuito acessível ao público onde estão e estarão disponíveis releases, fotos, obras, biografias e textos sobre artistas negros e negras cearenses.

Essa plataforma é dedicada à memória de Kaciano Gadelha (1980-2021), sociólogo, pesquisador, curador e professor, e Tia de muitas de nós.